
Essa é uma ideia que circula bastante, mas ela é, na verdade, um mito. Descubra como funciona o ensino de gramática na Inglaterra, baseado em pesquisas acadêmicas.
O que acontece é que o ensino de gramática na Inglaterra passou por grandes mudanças nas últimas décadas, e a forma como um jovem inglês aprende "regras" é muito diferente da forma como nós, estrangeiros, aprendemos.
Aqui está um resumo de como funciona o ensino por lá, embasado em pesquisas acadêmicas e no currículo nacional britânico:
Desde 2013, o currículo nacional da Inglaterra tornou-se muito mais rigoroso em relação à gramática formal. Existe uma sigla que todo estudante (e pai) conhece bem: SPaG (Spelling, Punctuation and Grammar).

As crianças de 11 anos (final do Key Stage 2) fazem um teste nacional focado especificamente em identificar termos gramaticais como "substantivos", "orações subordinadas", "voz passiva" e "determinantes". Pesquisas mostram que, desde a introdução do teste SPaG, o tempo gasto ensinando gramática de forma explícita e descontextualizada aumentou significativamente nas escolas primárias inglesas [1].
Curiosamente, muitas crianças inglesas hoje sabem identificar um "fronted adverbial" (um advérbio no início da frase), algo que muitos adultos nativos nunca ouviram falar. A inclusão de termos como "fronted adverbials" tem sido alvo de intensos debates, com linguistas e educadores criticando o foco excessivo em terminologia técnica em detrimento da criatividade na escrita [2] [3].
A grande diferença é o contexto:

Aprendemos a estrutura para depois tentar falar. Estudamos a "fórmula" do Present Perfect para conseguir montar uma frase.
Eles já chegam à escola sabendo falar. O ensino de gramática serve para refinar a escrita, melhorar a pontuação e expandir o vocabulário para contextos acadêmicos ou profissionais. No entanto, estudos indicam que o ensino tradicional de gramática (focado apenas em regras e terminologia) não melhora necessariamente a habilidade de escrita das crianças. A pesquisadora Debra Myhill, por exemplo, argumenta que a gramática só é útil quando ensinada de forma contextualizada, como um recurso para a construção de sentido na escrita [4].
Nas escolas secundárias (equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio no Brasil), o foco muda da gramática pura para a Análise Literária e o uso da linguagem.
Em vez de preencher lacunas com verbos, o aluno analisa por que um autor usou determinada estrutura gramatical para criar um efeito de suspense ou autoridade.
A gramática é ensinada como uma ferramenta para a expressão, e não como um conjunto de regras isoladas.

Existem dois motivos principais para essa percepção:
Houve um período entre os anos 60 e o início dos anos 2000 em que o ensino de gramática formal foi deixado de lado em favor de uma abordagem mais "criativa" e menos técnica. Por isso, muitos adultos ingleses hoje admitem não saber as regras que seus filhos estão aprendendo agora. A história da avaliação do currículo nacional na Inglaterra mostra que o ensino de gramática passou por várias fases, alternando entre abordagens mais prescritivas e mais progressistas [5].
O nativo tem um "ouvido" para o que está certo. Ele sabe que "the big red house" soa bem e "the red big house" soa mal, mas ele raramente sabe explicar que isso se deve à hierarquia dos adjetivos.
| Fase | Foco Principal |
|---|---|
| Primário | Fonética (para ler) e SPaG (base gramatical e ortográfica formal). |
| Secundário | Análise crítica, literatura e redação argumentativa. |
| Abordagem | Integrada: a gramática idealmente deve ser um meio para produzir textos melhores, não um fim em si mesma, embora o currículo atual seja criticado por focar demais na terminologia. |
Portanto, se alguém lhe disse que eles não estudam gramática, essa pessoa provavelmente está lembrando do sistema de 30 anos atrás ou confundindo "não estudar gramática como um estrangeiro estuda" com "não estudar gramática de jeito nenhum".
Nossa experiência aprendendo inglês como segunda língua é baseada quase 100% em regras, enquanto a deles é baseada em uso e, mais recentemente, em metalinguagem(saber os nomes das regras).
Para fechar o raciocínio, vale notar uma ironia: hoje em dia, um aluno de 10 anos em Londres estuda conceitos gramaticais tão específicos que muitos linguistas criticam o currículo por ser "teórico demais" e prejudicial à criatividade, como apontado pelo autor Michael Rosen [2].
O debate por lá é intenso: de um lado, o governo quer que todos dominem a norma culta; de outro, professores e pesquisadores argumentam que decorar nomes de termos técnicos não ajuda necessariamente a criança a escrever um texto mais bonito ou emocionante [4].
No fim das contas, eles estão vivendo o movimento inverso ao que a fama sugere: saíram de décadas de "gramática zero" para um sistema que exige saber o que é um subjuntivo antes mesmo de entrar na adolescência!